Friday, July 10, 2009

Quanta ignorância

Costumo ligar a TV toda vez que acordo para ouvir as últimas notícias e saber como está o trânsito (nos dias de semana) ou para assistir qualquer coisa (nos fins de semana). Em um sábado qualquer, acordei e liguei minha TV como de costume. Estava passando um dos milhares de programas evangélicos da BAND e um pastor, cujo nome não me recordo (não era figurinha repetida como o Malafaia e o R.R. Soares), pregava fervorosamente (pra variar).

Ainda estava em estado de semiconsciência quando ele me despertou totalmente ao dizer (aos berros) a seguinte frase: "porque quem vai contra o seu patrão, vai contra Deus. Você sabe que o Direito do Trabalho é paternalista e pró-trabalhador e mesmo assim você se volta contra o seu patrão!"

Depois de o pastor dizer essas palavras no mais alto tom, ouviu-se um coro: "Amém!". Eram os ouvintes (os fiéis).

Fiquei muito triste com o que ouvi, pensei nisso por umas duas semanas. Se eu fosse jovem, ficaria revoltado, mas agora eu fico triste ao ver uma ignorância dessas sendo confirmada pelas pessoas...O pastor foi irresponsável por dizer uma idiotice sem tamanho e os fiéis ratificaram tranquilamente. A ignorância deve ser mesmo uma benção, pois é libertadora. Te permite afrontar qualquer coisa, mas principalmente o bom senso.

Você vai me dizer que essas pessoas (com exclusão do pastor), em sua maioria, não tiveram boa base de estudos e muitas são de origem humilde. Além de concordar com você, eu vou complementar o raciocínio dizendo que, por não terem estudo e cultura geral, essas pessoas são mais sucetíveis a um formador de opinião (no caso, o pastor). Como alguém disse uma vez, "o encosto só se apodera das pessoas pobres. No dia que exorcizarem o Eike Batista lá no meio do palco, com ele de joelhos e falando grosso, os olhos revirados, eu passo a acreditar em tudo".

Superando isso (que não é o assunto principal), sinto necessidade de dizer que o tal pastor estava totalmente equivocado e criou um sofisma ao dizer que quem se revolta contra o seu patrão, se revolta contra Deus...De fato, o Direito do Trabalho adota a posição "pró-trabalhador" e, para alguns, pode ser entendido como paternalista (apenas no sentido de que busca tutelar com a maior eficiência possível os interesses do trabalhador). Mas isso não colabora em absolutamente nada para o falso silogismo elaborado pelo pastor.

Basta fazermos a seguinte pergunta: Por que o Direito do Trabalho seria pró-trabalhador?

Já experimentou duelar numa lide contra uma grande empresa? Você e seu defensor público contra uma multinacional e a melhor banca de advocacia do Brasil. Nesse caso quem é o hipossuficente? Quem tem mais condições técnicas e econômicas de produzir provas? Será que que a verdadeira igualdade não significa tratar desigualmente os desiguais? Penso que sim.

A história do Direito do Trabalho, querido pastor, acompanha a evolução da sociedade que caminhou da servidão ao trabalho assalariado. Mas uma coisa eu garanto: demorou muito para chegarmos à tutela especial da Justiça do Trabalho e antes disso muito sange rolou. Imagine quantos trabalhadores foram mutilados nas novíssimas máquinas da na Revolução Industrial e não tiveram ressarcimento de nada. Quantos foram os abusos com jornadas de trabalho que ultrapassavam o limite do humanamente possível? Quanta gente morreu de tanto trabalhar? Quantos tiveram que ouvir que não seriam ressarcidos do acidente sofrido porque a "empresa não teve culpa" (antes da idéia do risco do empreendimento e a responsabilidade objetiva)?

Os casos são incontáveis. O advogado Fábio Ferraz ilustra bem a situação do trabalhador no Estado Liberal ao dizer:
"O individualismo levava a uma exploração do mais fraco pelo mais forte. O capitalista livremente podia impor, sem interferência do Estado, as suas condições ao trabalhador. Havia mera igualdade jurídica. Em curto tempo, estavam os mais ricos cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres. O mais forte subjuga o mais fraco." (link)

O hipossuficiente precisa ser tratado com cautela, precisa ser melhor protegido, sim. E por isso o Direito do Trabalho adota o in dubio pro misero, ou seja, na dúvida (em caso de lacuna probatória, por exemplo) se decide a favor do trabalhador. É uma questão de necessidade e não capricho. Duvido muito que Deus "figure no pólo passivo" do processo movido entre o trabalhador e o empregador. Também não acredito que Deus se volte contra o trabalhador por ele perseguir um direito seu!!!

Mas ainda se pode argumentar que tudo isso é uma interpretação errada que eu fiz da frase. Você pode querer me convencer que o que o pastor quis dizer é que o trabalhador não deve mover ação contra seu patrão sabendo que não tem direito algum, apenas na tentativa de conseguir alguma vantagem...

Isso não muda abolutamente nada o que foi dito acima!!!! O direito de ação é garantia constitucional (art. 5º, XXXV, da Constituição Federal de 1988). Se o trabalhador promove uma ação contra seu empregador sem ter direito (o que é bem mais raro pela bagunça que é o Brasil) ele ganhará uma sentença de improcedência e acabou. O direito de ação ele vai ter sempre. O fato de o Direito do Trabalho ser "pró-trabalhador", não é sinônimo de vitória automática, nem de vitória a qualquer custo.

Prefiro acreditar, depois de tudo isso, que o pastor se equivocou pela sua ignorância com relação ao tema e que não estava falando como um "homem de negócios".

Enfim, fica o manifesto. Um formador de opinião deve ter um mínimo de cuidado com as afirmações que lança para o seu público, sob pena de cometer aberrações como essa.

Wednesday, May 20, 2009

Inside someone's mind

- Ele ri com vontade, e pareceu-me que todos que o cercavam estavam cada vez mais perto. No centro da roda, ele levanta o copo de cerveja, como quem fosse fazer um brinde, mas continua a conversa, dessa vez falando ainda mais alto. Ele já bebeu um pouco além da conta, e eu não estou feliz com isso. Por mais que eu tente me enturmar, no final, eu sempre fico meio de longe, calada, segurando o mesmo copo há 1 hora. Eu vejo sua personalidade mudar, e vejo sua felicidade (genuína, apesar de etilicamente exacerbada) de estar ali, naquele local, cercado daquelas pessoas. Parece ser coisa que mais lhe é rara. Liberdade. Liberdade? Não dá pra não ser um pouco imatura e pensar, "e eu?". É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal estou com ele.

- Me disseram que eu deveria estar feliz, mas acho que tem alguma coisa errada. Mais uma vez estamos no mesmo lugar, e eu, sentada em uma mesa atrás dele, fiquei esperando que ele virasse e me olhasse. Ele se levantou por algum motivo qualquer, e então desejei que ele chegasse mais perto de mim. Ele poderia me beijar. Bom, talvez fosse demais, com aquelas pessoas ao nosso redor... ele poderia me abraçar ou... me tocar de alguma maneira, acariciar meus cabelos por algum segundo. Ou poderia só me olhar, pra eu ter certeza de que ele está ali como eu estou ali, um pro outro. Ele se virou e sentou novamente, de costas para mim. É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal estou com ele.

- É estranho ver o que nela há de mim. Eu que sempre acreditei que as pessoas saem de uma relação com algo de alguém, e esse alguém, com algo meu (hopefully!). Sempre acreditei cada pessoa é única e exerce unicamente seu papel na vida. Não dá pra substituir ninguém, como quem apaga da mamória, sem que não sobre nenhum resquício ou marca. Há uma troca. Ela me disse que pensava assim também, mas daí a acreditar... Hoje é estranho vê-la passar. Trazendo no corpo aquela coisa minha. É estranho perceber. Envolve seu quadril, abraça suas coxas, desce aos seus pés. Centenas de pequenos quadrados, cada um deles sou eu. É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal não estou mais com ela.
- Depois de algum tempo, passou a ser mais aceitável a possibilidade de uma vez quem sabe vir a esbarrar com ela na rua, por aí. Antes eu ficava assombrado, e somente pensar nisso me dava uma certa taquicardia. Foi tão difícil tomar a decisão, executar e continuar a vida, sabendo que no mundo havia mais dois corações feridos e incompletos, dependentes da ação do tempo e da vida pra serem curados. Mas fui me convencendo que era o certo a se fazer. A sensação de insegurança era demais pra mim, eu precisava de uma certa coisa que... não chegava. Um suporte emocional maior, uma resposta mais adequada às minhas ansiedades. O problema podia ser meu, mas eu sou eu e então era preciso encaixar em algum lugar. Tomei meu rumo de pronto, e o tempo foi passando. Mas um dia seria inevitável. Nunca imaginei que numa situação dessas... numa festa de alguém que eu nem imaginava que ela conhecia. Acho que ela foi parar lá por causa de uma amiga de um amigo... no meio de um monte de gente, lá estava. Acompanhada, mas independente, linda, linda... No centro da roda, ela levanta o copo de cerveja, como quem fosse fazer um brinde, mas continua a conversa, dessa vez falando ainda mais alto. Ela já bebeu um pouco além da conta, e sorri fácil. E eu sinto... saudade? Desejo? Culpa? É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal não estou mais com ela.

Sunday, May 17, 2009

The shape of things to come*

Ando preocupado ultimamente. Algumas de minhas convicções (não dá pra dizer que são todas) tornaram-se dúvidas. E o ser humano, eu sei, não lida muito bem com dúvidas.

As dúvidas paracem perseguir com obsessão o esclarecimento. E quando o esclarecimento não vem só resta o nervosismo e a gastrite...Te juro que se eu fosse fumante estaria tragando o décimo cigarro...Se eu fosse alcoólatra estaria transpirando wisky...Mas, por não ser nenhuma dessas coisas, resolvi escrever sabendo que "words are, of course, the most powerful drug used by mankind" (Kipling).

Quero ir direto ao assunto, sem muitas alegorias, mas não posso fazer disso um diário ou um confessionário. Isso seria absolutamente errado levando em consideração as intenções iniciais desse blog. Por essas razões, me parece prudente (prudente é ótimo) escrever a minha prosa pouco elucidativa de sempre.

Eu sou o tipo de pessoa que não acredita que o destino está todo escrito de forma que nada que façamos poderia mudá-lo, ou ainda, que todas as atitudes humanas já foram previamente estabelecidas uma vez que o destino não muda. Quando ainda era bem jovem, no início da adolescência eu pensei que "se o meu destino está selado não há qualquer razão para me levantar da cama todos os dias e encarar meus professores, me esforçar em aprender coisas inúteis como física e handball, e etc. Se tudo foi estabelecido, não faz diferença".

Eu me revoltei com esse pensamento e amadureci a idéia. Mesmo por que a minha vida não foi das mais fáceis e eu sempre lutei para que ela fosse diferente (como está sendo) e nunca acreditei em pré-destinação. A partir de certo momento (ainda bem jovem), eu passei a acreditar que meu destino estava nas minhas mãos e que a vida me dava todas as escolhas possíveis. A cada escolha feita há uma consequência e assim é que se constrói o destino, fazendo escolhas e analisando as variáveis. Apesar de acreditar firmemente no karma, eu tenho certeza absoluta que de que ele traz livre arbítrio. Ainda que o karma me traga provações ao longo da vida, em cada provação estará uma oportunidade de evolução espiritual. Dependendo das minhas escolhas, da minha vontade livre, poderei evoluir ou não.

Enfim, isso tudo foi para explicar que eu acredito nas variáveis, acredito que não existe uma eterna constante que te guia e te leva para as situações que o destino escreveu antes mesmo do seu nascimento. E é justamente por pensar assim que eu faço questão de ter minha vida nas minhas mãos: eu sou o arquiteto.

Mas como fazer um obra conjunta com alguém que se deixa levar pelo destino? Enquanto um compra material, contrata mão de obra e começa a emplilhar os primeiros tijolos o outro pensa "se esse prédio tiver que esxistir, ele vai se edificar de forma autônoma. Para que esse prédio surja não preciso mover um tijolo, pois o único operário necessário é o Destino. E depois que o Destino terminar de construir esse prédio, basta entrarmos nele e vivermos felizes, se assim quiser o Destino."

Deu para entender? Enquanto um dos persongens arruma tempo para buscar maneiras próprias de tirar esse prédio, esse sonho, de sua planta, de sua imaginação o outro espera sentado que dê tudo certo. Enquanto um pensa em quanto dinheiro precisa levantar para mobiliar a moradia o outro se pergunta em que restaurante vai almoçar hoje.

Eu tenho dúvidas sobre como resolver essa situação. Quer dizer, se tudo depende do Destino, posso afirmar que para alguns ele é um tremendo puxa-saco babaquinha e dá tudo de mãos beijadas, mas para outros, meu amigo, ele é uma puta insensível e sádica, que além de te fazer pagar para receber chicotadas na bunda, ainda ri da sua cara no final.

Eu não gosto de depender do destino. E tenho um prédio na planta para construir. Eu tenho um sonho bonito pra caramba que merece a chance de acontecer. Merece muito. E, até pouco tempo, parecia que eu sabia todo o passo-a-passo. Mas agora, eu não sei nem onde encontrar meu primeiro tijolo. Contruir em conjunto é bem mais difícil do que eu pensava...

* O Rubem Fonseca disse que o inglês é o novo latim (in Bufo & Spallanzani).


Monday, May 4, 2009

Um despretensioso conto colaborativo - TERCEIRA PARTE

No exato momento em que senti meu ossos se chocando contra o chão duro e frio, eu finalmente admiti que tínhamos ido longe demais. E quando a dor na queda não doía mais, quando a dor dos disparos não doíam mais... bom, a dor no peito agora parecia causada pelas emoções do que tiros... engraçado como a gente consegue mentir tão bem para si mesmo, ao ponto de virar uma verdade em que cremos veementemente. Incrível...

Fomos longe demais em pequenos passos, pequenos o suficiente pra gente se acostumar e curtir a paisagem. E quanto mais motivos aparecem para condenar o que fizemos, mais motivos criamos pra justificar nossa própria vontade. E aí... "não é assim tão errado", "fomos levados a isso pelas circunstâncias", "precisamos disso pra mantermos a sanidade", ou "é só uma coisa boba". Mas, quando pensamos em sair... "é tarde demais, estamos envolvidos demais".

Lembrei, ali mesmo, enquanto minha garganta fechava e algumas lágrimas escorregavam pelos meus olhos, que quando me apaixonei pela primeira vez, ainda nova, eu soube que não conseguiria viver sem alguém que cuidasse de mim. Eu posava de muito livre e independente, e a cara fim de namoro eu jurava que não queria mais ninguém, e em 10 dias, já estar em outro relacionamento. Eu não buscava, eu juro! Ou achava que não... Mas nunca estava solteira. Engraçado... Mas olha, eu não ficava trocando de namorado toda hora. Eram relacionamentos longos, raramente traía, um ou outro, bem na adolescência... bobagens. Ainda nova, já formada, com um bom emprego, eu tinha acabado de me separar de um cara com quem eu morei uns 3 anos. Ele queria casar no papel, filhos, uma vida chata de margarina e eu percebi que era nova demais pra me prender. Inconscientemente eu já devia saber que não ia ficar sozinha por muito tempo. Ele saiu, eu fiquei no apartamento onde tudo era meu mesmo. E como sempre, em poucos dias eu já estava sentada num restaurante da Zona Sul com esse cara interessantíssimo, charmoso... duas taças de vinho e eu já me joguei, como sempre fazia. Se iria dar certo ou não, sei lá.

Deu certo. Dante era um homem fascinante, e não me pareceu estranho me casar com ele. Ele lidava comigo de um jeito completamente diferente dos outros. Os meus antigos parceiros pareciam ter medo de me perder a qualquer momento. Eu era mais segura. Dante passava segurança, como se tivesse certeza de que eu precisava dele. Então, eu passei a precisar mesmo.
Bateu o medo de ele me achar carente. Eu passei a fingir que era segura também. Os primeiros anos foram difíceis, mas depois essa transformou-se em mais uma mentira que eu quis acreditar. A empresa dele foi crescendo assustadoramente, o dinheiro entrava aos montes e o nosso padrão de vida deu um salto. Casa nova, reformas, nosso filho... tinha coisa demais pra administrar, eu precisava ficar em casa agora. Que bela ironia, eu abraçava o tédio. Ficava arrumando coisas novas pra fazer. Cerâmica, decoração, tai-chi... Dante estava na ponte aérea, nosso filho crescia tão rápido. Um dia ele disse "tchau" e foi estudar na Inglaterra. Dante não me dava "tchau" quando saía... Mas era um equilíbrio constante que eu não queria quebrar.

Até... bom, até arrumar um amante. Ok, não vamos dissimular porque eu tô achando que vou morrer. Até minhas amigas falavam, cheias de segundas intenções, que eu precisava de algo excitante em minha vida. Ajudar a manter minha auto-estima, me deixar satisfeita. Ele era um chef em ascenção, o que quer dizer que tinha tempo livre pela manhã... Apesar de sua dedicação na cozinha, fora dela ele não tinha muito cuidado com suas palavras e atos, era insensível, bruto, desajeitado. Outro belo paradoxo. Era inseguro fora do espaço em que dominava. Então era eu que tinha essa função. E adorava.

Só que, em casa, as coisas não melhoraram. Pelo contrário. Recuperada minha confiança, eu e Dante brigávamos cada vez mais, a intensidade aumentava devagar, a cada embate. Eu me descobri ácida como nunca havia sido. E atacava tudo que me desagradava com fúria. E quão furiosa eu não fiquei quando encontrei uma mensagem estranhíssima no celular dele. Não, eu não queria espionar, mas quando ele insistia em tocar de madrugada, num dia em que Dante tinha acabado de sair para o escritório, eu perdi as estribeiras. Minha primeira opção foi jogá-lo pela janela, mas o treco vibrou em minha mão. A pessoa desistira de ligar e mandara uma mensagem de texto. Não consigo explicar, eu simplesmente apertei o botão. Segundos depois, Dante entrou correndo no quarto. Ele tinha se dado conta que o aparelho não estava com ele. Tarde demais...

Saturday, April 4, 2009

Um despretensioso conto colaborativo

Tá na moda, né? Com a internet, tudo agora tem apelo participativo... Tive essa idéia (ggrrr, agora é sem acento) por que meu partner poderia trazer muito de sua área pro negócio.

Por isso, ele tem a liberdade para modificar, cortar, aumentar, criticar, dizer que tá ruim e apagar o post! :-P

Bom, aí vai, a coisa começou assim:

Na minha mente há um tribunal em que eu sou sua advogada. Enquanto os outros te consideram réu, eu estou disposta a fazer tudo para provar sua inocência. Acredito no seu depoimento. Em frente a um juri ignorante, eles apresentam provas da sua culpa, as quais julgam irrefutáveis. Eu protesto! Não há testemunhas. Acima de tudo há o benefício da dúvida.
Meu cliente não precisa fazer muito. Eu uso de toda a minha elouquência (até praticamente enlouquecer...). Cito as leis, seus parégrafos e interpretações. Recrio o cenário do crime mais uma vez, e outra, e outra.
A acusação grita: "Como você não vê?"
A justiça é cega.
O juiz nunca bate o martelo. E marca outra audiência, para outro dia.
O juri sabe cada vez menos.
Promotoria e acusação ganham mais tempo.
Você sai algemado.
Eu também, aos processos que levo para casa. Pastas, incontáveis folhas de papel, sobre as quais acado dormindo, ao raiar do dia, após revisá-las pela centésima vez, tentando achar um desfecho favorável. Livrar sua cara e provar que nunca estive errada.

Segunda parte

Depois de ter passado mais de quatro horas tentando convencer um júri que se preocupa mais em tentar não cair no sono do que valorar as provas produzidas no processo, resolvi que precisava de uma cerveja.
Combinei com os colegas de profissão no bar de sempre, próximo ao Edifício Garagem Menezes Cortes. Resolvi me adiantar e cheguei com meia hora de antecedência para pensar um pouco sobre tudo o que aconteceu...
Pedi um choppe bem gelado e puxei um banquinho no bar. Bebi o primeiro copo sem degustar, a sede era maior que tudo e o gosto eu já sabia, afinal.
Antes de começar a entornar o segundo copo, comecei a me lembrar do meu início no Direito Civil...Nossa, como foi que eu vim parar no Direito Penal? Eu que sempre entendi que essas áreas não se misturavam, que o Civil era mais seguro... O que me fez mesmo mudar?
Ah sim, o dinheiro! Eu precisava da grana e a grana é alta quando se tem como cliente um homem rico com o Dante, meu atual cliente...
Um homem rico acusado de ter matado a esposa...Não precisava do dinheiro do seguro...jura de pés juntos que se davam bem...Prova do crime? Nenhuma. Tudo o que se sabe é que ele chegou em casa e achou a mulher sem vida no chão usando um vestido branco encharcado de sangue. Dois tiros no peito...casa revirada...objetos de valor roubados...Mas ninguém viu o meliante sair da casa...Crime estranho, mas possível...
A polícia convencionou que o principal supeito era o meu cliente. Não havia pólvora na mão dele, não foi encontrada a arma do crime. No entanto, todos os vizinhos sabiam da briga feia que eles tiveram na noite anterior...Fofoca...foda!
Eles se desentenderam e o Dante saiu de casa com as roupas e tudo mais...Acontece, porra! Não é?
Desce mais um garçom...
Enquanto espero meu copo e me perco nos detalhes que antecederam o crime vejo um casal na minha frente. A mulher é jovem, o homem nem tanto. Ele roça a barba no pescoço dela e ela parece gostar, pois ri enclinando a cabeça para trás. Era uma cena normal até que reparei que ele usava um grossa aliança dourada e ela não...Amantes...a coisa fica mais quente sem as responsabilidade e neoroses de cada dia...
Amante...eu não pensei nisso! Será que ele tinha uma amante?!
Antes que eu pudesse pensar meus amigos chegaram e estávam acenando pra mim na mesa 12.

Sunday, March 29, 2009

Cidade contraditória


“Toda história tem três lados: o meu, o seu e a verdade. 
E ninguém está errado!”
Robert Evans

Teste básico para saber se você é um otimista ou um pessimista: olhe para um copo com água até a metade. Você diria que ele está “meio cheio” ou “meio vazio”?
O Rio de Janeiro é um grande copo com água até a metade. E depende de cada um vê-lo como maravilhoso ou asqueroso. Creio que seja uma questão otimismo, além dos demais graus que essa qualidade pode atingir. 
Dicionário Michaelis: o.ti.mis.mo
s. m. 1. Disposição, natural ou adquirida, para julgar tudo o melhor possível. 2. Filos. Sistema dos que consideram este mundo o melhor dos mundos possíveis.
Tem-se no imaginário popular que o carioca é um ser sempre alegre, feliz; mesmo com todas as adversidades da vida, ele procura sempre dar um “jeitinho”. Um ser despreocupado e mais tranqüilo. Um ser que bate palmas para o lindo pôr-do-sol na praia, que sai do trabalho a tempo de dar uma “esticadinha” até o mar. Que samba o dia inteiro como se tivesse um tamborim ao invés de coração batendo no peito. Inacreditavelmente, as praias estão sempre cheias todos os dias e todos os habitantes da cidade do Rio de Janeiro são incrivelmente bronzeados e naturalmente da cor morena que seduz tanto os “branquelos” estrangeiros que por aqui aportam. Aliás, para eles, a cidade é um paraíso de prazer sexual, onde se rendem às mulatas que os levarão à loucura. Portanto, o Rio de Janeiro pode se resumir a um lugar onde sempre se busca o prazer de viver. 
Naturalmente, isso não deveria ser difícil, com essa abundância de belezas naturais, praias, montanhas, monumentos, cena musical fértil, povo alegre, bem-humorado e bonito. O Rio de Janeiro é muito lindo. E, naturalmente, otimista.
Ser otimista não é ser alienado.
Como consta no dicionário, o otimismo também pode ser adquirido. Algo me leva a crer que é bem mais difícil ser otimista sem poder olhar para o Pão de Açúcar todos os dias pela janela do quarto, ao acordar.
O Rio de Janeiro é muito mais que praia, monumentos, beleza natural e etc. Há um Rio de Janeiro com valão, esgoto a céu aberto, mendigos e crianças de rua. Com casas de palafita e gente vivendo abaixo do nível da pobreza. Com toque de recolher de traficantes e intermináveis trocas de tiros diárias durante a madrugada. Em pleno maravilhoso Rio de Janeiro. 
Uma amiga saiu do interior do país e instalou-se no Rio de Janeiro: “Aqui é cidade grande, onde tudo acontece. Aqui têm muito mais oportunidades para ver meus sonhos realizados. Aqui se vive”.
Meu pai sonha em mudar-se para o interior do país, ele simplesmente cansou-se do Rio de Janeiro: “Não se pode sair para lugar nenhum, estamos presos em casa enquanto os bandidos estão soltos. Não posso passear tranqüilo com a minha família, há noites em que não durmo com o som dos tiros.”
O Rio é cidade grande que cresceu e transbordou pelas margens. Uma série de governos desastrados e populistas, apenas preocupados em fazer paliativos e vender tudo por 1 real, acabou por agravar as condições sociais. Parece que nossa educação e segurança também valem 1 real. Agora, os que caíram fora da “margem” voltam-se contra nós e às vezes parece que se trata de um problema sem solução. 
A pobreza também aliena. Ou melhor, te joga em uma rotina de desgraça por todo lado, parece que só existe isso: desgraça, tragédia, morte. Existem pessoas que não sabem o que é vestibular, que pensam que vida boa só existe na novela das 8 e que na “primeira vez” não se engravida.
Sou suburbana e não tenho vergonha disso. Sou daquelas que acreditam que “é de baixo que se avalia melhor as coisas”. Já fui a eventos de alta sociedade fiquei abismada com o número de gente rica que existe nessa cidade. Mais que automaticamente me veio o seguinte pensamento: “Se existe tanta gente rica, imaginem o número de gente pobre!”
O engraçado de tudo é que a massa desfavorecida invade cada vez mais as zonas nobres. Ironicamente, os lugares onde se vê mais mendigos e trombadinhas são no centro da cidade e na Zona Sul. Penso que eles estão ali com o objetivo de lembrar-nos que eles existem, cutucando essa ferida que não tem previsão de fechar. Mostrar aos turistas que eles não estão no paraíso. Mostrar a nós mesmos que não estamos no paraíso. E muita gente ainda não se dá conta disso!
Há casos de certo otimismo na pobreza. Uma das maiores favelas do mundo fica em Copacabana e virou ponto turístico, com passeios organizados cheios de turistas querendo subir o morro e apreciar a linda vista do Rio de Janeiro, além de conhecer um pouco do modo de vida desse praticamente “bairro”, tudo muito bonito, quase folclórico. Uma favela “fashion”. Também algo me leva a crer que ela não teria tanto sucesso se estivesse em outra zona. É engraçado ouvir alguém dizer “eu sei o que é pobreza, eu já fui na Rocinha” ou “eu vi ‘Cidade de Deus’”. 
Ser otimista também não é pensar que só dar uma esmola, participar de uma caminhada beneficente pela orla ou “abraçar” a Lagoa vai mudar tudo.
Pessimista, eu? Confesso que não sou otimista, sou realista.
Quero ver morar em uma casa onde não se pode acender as luzes depois das 22 horas.
Quero ver abraçar um delinqüente juvenil.
E ainda sim amar o Rio de Janeiro. Então essa cidade será a estes olhos sempre maravilhosa, e estes olhos genuinamente e perfeitamente otimistas.

Wednesday, March 18, 2009

O Centro - parte I: não há santos lá

No meu entendimento, o centro da cidade é um lugar diferenciado.

Lá, pessoas fazem dinheiro, pedem dinheiro e roubam dinheiro. Todo tipo de homem você encontra lá: juiz, advogado, funcionário público, garçom, diretor da empresa, jornalista, policial, engraxate, charlatão, ladrão... O improvável encontro desses homens se dá no centro da cidade.

Lá existe uma bagunça organizada. Em todas as calçadas tem um camelô. Tudo você encontra, seja lá o que for. Uma pilha, uma puta, um jornal...”na minha mão é só um real”, eles dizem.

O lícito e o ilícito convivem tão juntos que já não se vê mais a linha divisória. Ela está gasta, apagada pela ação do tempo... E o mesmo serve para as pessoas: não há santos no centro da cidade. E isso, meus amigos, é questão de sobrevivência.

Saber por onde andar, com quem falar. Saber até onde ir e a profundidade que se pode chegar...Tudo isso se aprende com o tempo, é o normal. Mas se alguém perde essa imprescindível lição, a lei da selva se faz presente e o mais fraco é engolido pelos mais fortes. Sem pena, piedade ou cartão postal.

Também já não se vê linha divisória entre o certo e o errado nas pessoas que lá trabalham. Cada um faz o que tem que fazer. Trabalhar no centro é saber ser ambíguo, não se pode dar mole. Pois em cada esquina te espera uma armadilha, uma ilusão.

Mas o que eu realmente quero dizer aqui é que já não se sabe mais o que é real e o que é falsidade.

Alguém certamente vai lhe pedir dinheiro no centro. No meu caso, isso acontece todo santo dia. Talvez essa pessoa diga que mora fora do Rio de Janeiro e que precisa de dinheiro para a passagem de volta ou talvez ela diga que o dinheiro é para comida e esteja com um bebê no colo. As histórias são várias, mas não são infinitas e isso faz com que cada pessoa já tenha ouvida uma delas.

Minhas dúvidas aparecem quando penso que não tenho como saber se aquela pessoa realmente não vive no Rio de Janeiro e também não sei se o bebê da outra mulher é mesmo filho dela. Ora, é só andar no centro para ouvir o conto do vigário TODOS OS DIAS. Dia desses eu vi na TV que uma mulher usava o filho de outra para pedir dinheiro, pois essa era uma maneira de sensibilizar as pessoas....

Em quem confiar? Para se estabelecer uma relação de confiança com alguém levam-se anos e ali, naquele momento, essa pessoa quer que você acredite nela, que você sinta pena dela, que você seja generoso, altruísta e muitas vezes...cego.

Confesso que já não consigo mais ser cego no centro da cidade. Eu olhei nos olhos do mundo e não gostei do que vi. E essa visão fez de mim uma pessoa diferente e fez com que os meus olhos não fechassem mais. Ajudo quem eu conheço, certamente. Mas quando não reconheço a verdade crua, nua e brutal nos olhos de quem vem me pedir dinheiro, prefiro hesitar É como eu disse antes: não há santos no centro da cidade.