Sunday, July 26, 2009

Não alimente os animais

Alguns dias de felicidade não macaqueiam as dúvidas e escolhas a fazer da vida. Talvez só as deixem no canto, barateando por algum momento. Mas ainda estão lá. Algumas são elefantescas demais para serem escondidas debaixo do tapete, algumas têm importância leonina, assustam-nos com seus rugidos, urgem uma posição. A vida cisma em ser camaleônica, as certezas de um dia não são mais certas no outro. Enquanto não tenho a sabedoria de uma coruja, ainda deixo a dúvida invadir minha casa, sorrateira como uma cobra. Quando abro os olhos, está lá, essa presença silenciosa e incômoda. Cedo ou tarde, ela poderá dar o seu bote.

Essas pequenas e determinadas formiguinhas invadem meu cérebro, atrás de alguma guloseima para roer. Displicente com a ideia de estar formando uma colônia cada vez mais profunda, acho-me a alimentar os bichinhos. Logo o meio ambiente adequado atrairá outros. Está aí um ecossistema favorável para o crescimento e desenvolvimento de qualquer caraminhola! Virão, dos vegetarianos aos carnívoros, a pedir meu sustento, enquanto desenho os pastos intermináveis e tento manter o equilibrio, enquanto os predadores atacam suas presas seguindo o ronco interior.

Agora isso cansa, não deveria ter começado... eles estão mal acostumados. Não posso mais ficar como um bicho-preguiça: as onças estão à solta. Devo mandar a seca, deixá-los morrer, migrar... sou quem preciso sobreviver.

Para ouvir: Talking Bird - Death Cab For Cutie
"The longer you think, the less you know what to do..."

Saturday, July 11, 2009

Liberdade de expressão para os bons

Liberdade de expressão, essa coisa esquisita... enfim, escuta-se muita sandice nesse mundo. Besteira é o que o povo adora falar, difícil é quando a pessoa fala besteira acreditando que não é. Aí é duro.

Eu não costumo falar muito em público. Eu prefiro ouvir, por medo de falar uma besteira muito grande. Isso me atrapalha um pouco, quando eu perco oportunidades de dar algum exemplo ou fazer uma pergunta. Eu prefiro pensar um pouco mais e perguntar pra outra pessoa depois, se for algo que eu realmente não consegui descobrir sozinha. Depende do momento também, às vezes cismo em fazer alguma piada, mas só quando eu tenho certeza que todos vão rir.

Não falar muito também me atrapalha quando eu acabo não defendendo minhas ideias em público. Eta pós-moderninade que me faz relativizar. Mas depois de ver tanta gente defendendo tanta sandice, acho que eu relativizo demais. Oras, se tanta gente pode dizer sandice, por que eu não posso dizer sandice também? Por que vai que não é sandice?
Deveria ser um fato comprovado pela ciência que a maioria das pessoas não submetem suas palavras ao cérebro antes de dizê-las. É triste constatar que há muita, mas muita gente sem-noção nesse mundo.
Formadores de opinião? O que é isso hoje em dia? Representantes da boas e velhas instituições, como Igreja e Estado. Fora o exemplo do pastor já citado, o que dizer das frases do nosso presidente Lula? E tem o maior nível de popularidade do pais, vai saber. Então, fora isso? Quem tem o microfone pra uma mega audiência todo domingo? Quem está entrando nos lares de segunda a sábado nos lares brasileiros no horário nobre (você conhece algum indiano morando no Rio? É, nem eu.)? Qual é o escritor brasileiro com maior reconhecimento nacional e internacional, vende milhões de livros em que copia os mesmos ensinamentos mais clichês de Confúcio como se fossem deles? Qual ex-BBB está todo dia no maior portal da internet?
Por que o microfone tem que cair na mão deles? Por que ganham tanto espaço? Por que tanta gente diz "amém"? Mistério...
Todo mundo fala muita coisa. Todo mundo se vê no direito de dar uma opinião. Todo mundo acha que tem alguma coisa a dizer. É muita informação. Qual foi a última que você realmente guardou por que achou que valia a pena?

A moral da história, amizade, é essa: "O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons." Martin Luther King, que era pastor...

p.s.: se é pra ficar encucado com alguma coisa, fique encucado com o fato de muitos pastores falarem sandice nos cultos, mas os milagres continuarem acontecendo. Por que sim, acontecem. Já aprendi que se é parte da promessa de Deus que haja cura ou libertação, vai acontecer, independente se o pastor for ladrão, burro e falar errado. Por que não é ele que realmente faz os milagres, é? Só que aí esses pastores ganham seguidores. Por que um pastor tem que ter seguidores? Ok, voltando à analogia primária, as ovelhas sim, seguem o pastor. Mas o pastor também é responsável por elas, por guiá-las por pastos bons e águas limpas, por tratar-lhes as feridas, para protegê-las dos lobos... Enfim, pastores são humanos e passíveis de erros como suas ovelhas. O que nós precisamos ter é discernimento pra submetê-los e a nós mesmos aos ensinamentos do Chefe. É isso que falta...

Friday, July 10, 2009

Quanta ignorância

Costumo ligar a TV toda vez que acordo para ouvir as últimas notícias e saber como está o trânsito (nos dias de semana) ou para assistir qualquer coisa (nos fins de semana). Em um sábado qualquer, acordei e liguei minha TV como de costume. Estava passando um dos milhares de programas evangélicos da BAND e um pastor, cujo nome não me recordo (não era figurinha repetida como o Malafaia e o R.R. Soares), pregava fervorosamente (pra variar).

Ainda estava em estado de semiconsciência quando ele me despertou totalmente ao dizer (aos berros) a seguinte frase: "porque quem vai contra o seu patrão, vai contra Deus. Você sabe que o Direito do Trabalho é paternalista e pró-trabalhador e mesmo assim você se volta contra o seu patrão!"

Depois de o pastor dizer essas palavras no mais alto tom, ouviu-se um coro: "Amém!". Eram os ouvintes (os fiéis).

Fiquei muito triste com o que ouvi, pensei nisso por umas duas semanas. Se eu fosse jovem, ficaria revoltado, mas agora eu fico triste ao ver uma ignorância dessas sendo confirmada pelas pessoas...O pastor foi irresponsável por dizer uma idiotice sem tamanho e os fiéis ratificaram tranquilamente. A ignorância deve ser mesmo uma benção, pois é libertadora. Te permite afrontar qualquer coisa, mas principalmente o bom senso.

Você vai me dizer que essas pessoas (com exclusão do pastor), em sua maioria, não tiveram boa base de estudos e muitas são de origem humilde. Além de concordar com você, eu vou complementar o raciocínio dizendo que, por não terem estudo e cultura geral, essas pessoas são mais sucetíveis a um formador de opinião (no caso, o pastor). Como alguém disse uma vez, "o encosto só se apodera das pessoas pobres. No dia que exorcizarem o Eike Batista lá no meio do palco, com ele de joelhos e falando grosso, os olhos revirados, eu passo a acreditar em tudo".

Superando isso (que não é o assunto principal), sinto necessidade de dizer que o tal pastor estava totalmente equivocado e criou um sofisma ao dizer que quem se revolta contra o seu patrão, se revolta contra Deus...De fato, o Direito do Trabalho adota a posição "pró-trabalhador" e, para alguns, pode ser entendido como paternalista (apenas no sentido de que busca tutelar com a maior eficiência possível os interesses do trabalhador). Mas isso não colabora em absolutamente nada para o falso silogismo elaborado pelo pastor.

Basta fazermos a seguinte pergunta: Por que o Direito do Trabalho seria pró-trabalhador?

Já experimentou duelar numa lide contra uma grande empresa? Você e seu defensor público contra uma multinacional e a melhor banca de advocacia do Brasil. Nesse caso quem é o hipossuficente? Quem tem mais condições técnicas e econômicas de produzir provas? Será que que a verdadeira igualdade não significa tratar desigualmente os desiguais? Penso que sim.

A história do Direito do Trabalho, querido pastor, acompanha a evolução da sociedade que caminhou da servidão ao trabalho assalariado. Mas uma coisa eu garanto: demorou muito para chegarmos à tutela especial da Justiça do Trabalho e antes disso muito sange rolou. Imagine quantos trabalhadores foram mutilados nas novíssimas máquinas da na Revolução Industrial e não tiveram ressarcimento de nada. Quantos foram os abusos com jornadas de trabalho que ultrapassavam o limite do humanamente possível? Quanta gente morreu de tanto trabalhar? Quantos tiveram que ouvir que não seriam ressarcidos do acidente sofrido porque a "empresa não teve culpa" (antes da idéia do risco do empreendimento e a responsabilidade objetiva)?

Os casos são incontáveis. O advogado Fábio Ferraz ilustra bem a situação do trabalhador no Estado Liberal ao dizer:
"O individualismo levava a uma exploração do mais fraco pelo mais forte. O capitalista livremente podia impor, sem interferência do Estado, as suas condições ao trabalhador. Havia mera igualdade jurídica. Em curto tempo, estavam os mais ricos cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres. O mais forte subjuga o mais fraco." (link)

O hipossuficiente precisa ser tratado com cautela, precisa ser melhor protegido, sim. E por isso o Direito do Trabalho adota o in dubio pro misero, ou seja, na dúvida (em caso de lacuna probatória, por exemplo) se decide a favor do trabalhador. É uma questão de necessidade e não capricho. Duvido muito que Deus "figure no pólo passivo" do processo movido entre o trabalhador e o empregador. Também não acredito que Deus se volte contra o trabalhador por ele perseguir um direito seu!!!

Mas ainda se pode argumentar que tudo isso é uma interpretação errada que eu fiz da frase. Você pode querer me convencer que o que o pastor quis dizer é que o trabalhador não deve mover ação contra seu patrão sabendo que não tem direito algum, apenas na tentativa de conseguir alguma vantagem...

Isso não muda abolutamente nada o que foi dito acima!!!! O direito de ação é garantia constitucional (art. 5º, XXXV, da Constituição Federal de 1988). Se o trabalhador promove uma ação contra seu empregador sem ter direito (o que é bem mais raro pela bagunça que é o Brasil) ele ganhará uma sentença de improcedência e acabou. O direito de ação ele vai ter sempre. O fato de o Direito do Trabalho ser "pró-trabalhador", não é sinônimo de vitória automática, nem de vitória a qualquer custo.

Prefiro acreditar, depois de tudo isso, que o pastor se equivocou pela sua ignorância com relação ao tema e que não estava falando como um "homem de negócios".

Enfim, fica o manifesto. Um formador de opinião deve ter um mínimo de cuidado com as afirmações que lança para o seu público, sob pena de cometer aberrações como essa.

Wednesday, May 20, 2009

Inside someone's mind

- Ele ri com vontade, e pareceu-me que todos que o cercavam estavam cada vez mais perto. No centro da roda, ele levanta o copo de cerveja, como quem fosse fazer um brinde, mas continua a conversa, dessa vez falando ainda mais alto. Ele já bebeu um pouco além da conta, e eu não estou feliz com isso. Por mais que eu tente me enturmar, no final, eu sempre fico meio de longe, calada, segurando o mesmo copo há 1 hora. Eu vejo sua personalidade mudar, e vejo sua felicidade (genuína, apesar de etilicamente exacerbada) de estar ali, naquele local, cercado daquelas pessoas. Parece ser coisa que mais lhe é rara. Liberdade. Liberdade? Não dá pra não ser um pouco imatura e pensar, "e eu?". É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal estou com ele.

- Me disseram que eu deveria estar feliz, mas acho que tem alguma coisa errada. Mais uma vez estamos no mesmo lugar, e eu, sentada em uma mesa atrás dele, fiquei esperando que ele virasse e me olhasse. Ele se levantou por algum motivo qualquer, e então desejei que ele chegasse mais perto de mim. Ele poderia me beijar. Bom, talvez fosse demais, com aquelas pessoas ao nosso redor... ele poderia me abraçar ou... me tocar de alguma maneira, acariciar meus cabelos por algum segundo. Ou poderia só me olhar, pra eu ter certeza de que ele está ali como eu estou ali, um pro outro. Ele se virou e sentou novamente, de costas para mim. É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal estou com ele.

- É estranho ver o que nela há de mim. Eu que sempre acreditei que as pessoas saem de uma relação com algo de alguém, e esse alguém, com algo meu (hopefully!). Sempre acreditei cada pessoa é única e exerce unicamente seu papel na vida. Não dá pra substituir ninguém, como quem apaga da mamória, sem que não sobre nenhum resquício ou marca. Há uma troca. Ela me disse que pensava assim também, mas daí a acreditar... Hoje é estranho vê-la passar. Trazendo no corpo aquela coisa minha. É estranho perceber. Envolve seu quadril, abraça suas coxas, desce aos seus pés. Centenas de pequenos quadrados, cada um deles sou eu. É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal não estou mais com ela.
- Depois de algum tempo, passou a ser mais aceitável a possibilidade de uma vez quem sabe vir a esbarrar com ela na rua, por aí. Antes eu ficava assombrado, e somente pensar nisso me dava uma certa taquicardia. Foi tão difícil tomar a decisão, executar e continuar a vida, sabendo que no mundo havia mais dois corações feridos e incompletos, dependentes da ação do tempo e da vida pra serem curados. Mas fui me convencendo que era o certo a se fazer. A sensação de insegurança era demais pra mim, eu precisava de uma certa coisa que... não chegava. Um suporte emocional maior, uma resposta mais adequada às minhas ansiedades. O problema podia ser meu, mas eu sou eu e então era preciso encaixar em algum lugar. Tomei meu rumo de pronto, e o tempo foi passando. Mas um dia seria inevitável. Nunca imaginei que numa situação dessas... numa festa de alguém que eu nem imaginava que ela conhecia. Acho que ela foi parar lá por causa de uma amiga de um amigo... no meio de um monte de gente, lá estava. Acompanhada, mas independente, linda, linda... No centro da roda, ela levanta o copo de cerveja, como quem fosse fazer um brinde, mas continua a conversa, dessa vez falando ainda mais alto. Ela já bebeu um pouco além da conta, e sorri fácil. E eu sinto... saudade? Desejo? Culpa? É nessas horas em que eu me vejo forçada a pensar por que afinal não estou mais com ela.

Sunday, May 17, 2009

The shape of things to come*

Ando preocupado ultimamente. Algumas de minhas convicções (não dá pra dizer que são todas) tornaram-se dúvidas. E o ser humano, eu sei, não lida muito bem com dúvidas.

As dúvidas paracem perseguir com obsessão o esclarecimento. E quando o esclarecimento não vem só resta o nervosismo e a gastrite...Te juro que se eu fosse fumante estaria tragando o décimo cigarro...Se eu fosse alcoólatra estaria transpirando wisky...Mas, por não ser nenhuma dessas coisas, resolvi escrever sabendo que "words are, of course, the most powerful drug used by mankind" (Kipling).

Quero ir direto ao assunto, sem muitas alegorias, mas não posso fazer disso um diário ou um confessionário. Isso seria absolutamente errado levando em consideração as intenções iniciais desse blog. Por essas razões, me parece prudente (prudente é ótimo) escrever a minha prosa pouco elucidativa de sempre.

Eu sou o tipo de pessoa que não acredita que o destino está todo escrito de forma que nada que façamos poderia mudá-lo, ou ainda, que todas as atitudes humanas já foram previamente estabelecidas uma vez que o destino não muda. Quando ainda era bem jovem, no início da adolescência eu pensei que "se o meu destino está selado não há qualquer razão para me levantar da cama todos os dias e encarar meus professores, me esforçar em aprender coisas inúteis como física e handball, e etc. Se tudo foi estabelecido, não faz diferença".

Eu me revoltei com esse pensamento e amadureci a idéia. Mesmo por que a minha vida não foi das mais fáceis e eu sempre lutei para que ela fosse diferente (como está sendo) e nunca acreditei em pré-destinação. A partir de certo momento (ainda bem jovem), eu passei a acreditar que meu destino estava nas minhas mãos e que a vida me dava todas as escolhas possíveis. A cada escolha feita há uma consequência e assim é que se constrói o destino, fazendo escolhas e analisando as variáveis. Apesar de acreditar firmemente no karma, eu tenho certeza absoluta que de que ele traz livre arbítrio. Ainda que o karma me traga provações ao longo da vida, em cada provação estará uma oportunidade de evolução espiritual. Dependendo das minhas escolhas, da minha vontade livre, poderei evoluir ou não.

Enfim, isso tudo foi para explicar que eu acredito nas variáveis, acredito que não existe uma eterna constante que te guia e te leva para as situações que o destino escreveu antes mesmo do seu nascimento. E é justamente por pensar assim que eu faço questão de ter minha vida nas minhas mãos: eu sou o arquiteto.

Mas como fazer um obra conjunta com alguém que se deixa levar pelo destino? Enquanto um compra material, contrata mão de obra e começa a emplilhar os primeiros tijolos o outro pensa "se esse prédio tiver que esxistir, ele vai se edificar de forma autônoma. Para que esse prédio surja não preciso mover um tijolo, pois o único operário necessário é o Destino. E depois que o Destino terminar de construir esse prédio, basta entrarmos nele e vivermos felizes, se assim quiser o Destino."

Deu para entender? Enquanto um dos persongens arruma tempo para buscar maneiras próprias de tirar esse prédio, esse sonho, de sua planta, de sua imaginação o outro espera sentado que dê tudo certo. Enquanto um pensa em quanto dinheiro precisa levantar para mobiliar a moradia o outro se pergunta em que restaurante vai almoçar hoje.

Eu tenho dúvidas sobre como resolver essa situação. Quer dizer, se tudo depende do Destino, posso afirmar que para alguns ele é um tremendo puxa-saco babaquinha e dá tudo de mãos beijadas, mas para outros, meu amigo, ele é uma puta insensível e sádica, que além de te fazer pagar para receber chicotadas na bunda, ainda ri da sua cara no final.

Eu não gosto de depender do destino. E tenho um prédio na planta para construir. Eu tenho um sonho bonito pra caramba que merece a chance de acontecer. Merece muito. E, até pouco tempo, parecia que eu sabia todo o passo-a-passo. Mas agora, eu não sei nem onde encontrar meu primeiro tijolo. Contruir em conjunto é bem mais difícil do que eu pensava...

* O Rubem Fonseca disse que o inglês é o novo latim (in Bufo & Spallanzani).


Monday, May 4, 2009

Um despretensioso conto colaborativo - TERCEIRA PARTE

No exato momento em que senti meu ossos se chocando contra o chão duro e frio, eu finalmente admiti que tínhamos ido longe demais. E quando a dor na queda não doía mais, quando a dor dos disparos não doíam mais... bom, a dor no peito agora parecia causada pelas emoções do que tiros... engraçado como a gente consegue mentir tão bem para si mesmo, ao ponto de virar uma verdade em que cremos veementemente. Incrível...

Fomos longe demais em pequenos passos, pequenos o suficiente pra gente se acostumar e curtir a paisagem. E quanto mais motivos aparecem para condenar o que fizemos, mais motivos criamos pra justificar nossa própria vontade. E aí... "não é assim tão errado", "fomos levados a isso pelas circunstâncias", "precisamos disso pra mantermos a sanidade", ou "é só uma coisa boba". Mas, quando pensamos em sair... "é tarde demais, estamos envolvidos demais".

Lembrei, ali mesmo, enquanto minha garganta fechava e algumas lágrimas escorregavam pelos meus olhos, que quando me apaixonei pela primeira vez, ainda nova, eu soube que não conseguiria viver sem alguém que cuidasse de mim. Eu posava de muito livre e independente, e a cara fim de namoro eu jurava que não queria mais ninguém, e em 10 dias, já estar em outro relacionamento. Eu não buscava, eu juro! Ou achava que não... Mas nunca estava solteira. Engraçado... Mas olha, eu não ficava trocando de namorado toda hora. Eram relacionamentos longos, raramente traía, um ou outro, bem na adolescência... bobagens. Ainda nova, já formada, com um bom emprego, eu tinha acabado de me separar de um cara com quem eu morei uns 3 anos. Ele queria casar no papel, filhos, uma vida chata de margarina e eu percebi que era nova demais pra me prender. Inconscientemente eu já devia saber que não ia ficar sozinha por muito tempo. Ele saiu, eu fiquei no apartamento onde tudo era meu mesmo. E como sempre, em poucos dias eu já estava sentada num restaurante da Zona Sul com esse cara interessantíssimo, charmoso... duas taças de vinho e eu já me joguei, como sempre fazia. Se iria dar certo ou não, sei lá.

Deu certo. Dante era um homem fascinante, e não me pareceu estranho me casar com ele. Ele lidava comigo de um jeito completamente diferente dos outros. Os meus antigos parceiros pareciam ter medo de me perder a qualquer momento. Eu era mais segura. Dante passava segurança, como se tivesse certeza de que eu precisava dele. Então, eu passei a precisar mesmo.
Bateu o medo de ele me achar carente. Eu passei a fingir que era segura também. Os primeiros anos foram difíceis, mas depois essa transformou-se em mais uma mentira que eu quis acreditar. A empresa dele foi crescendo assustadoramente, o dinheiro entrava aos montes e o nosso padrão de vida deu um salto. Casa nova, reformas, nosso filho... tinha coisa demais pra administrar, eu precisava ficar em casa agora. Que bela ironia, eu abraçava o tédio. Ficava arrumando coisas novas pra fazer. Cerâmica, decoração, tai-chi... Dante estava na ponte aérea, nosso filho crescia tão rápido. Um dia ele disse "tchau" e foi estudar na Inglaterra. Dante não me dava "tchau" quando saía... Mas era um equilíbrio constante que eu não queria quebrar.

Até... bom, até arrumar um amante. Ok, não vamos dissimular porque eu tô achando que vou morrer. Até minhas amigas falavam, cheias de segundas intenções, que eu precisava de algo excitante em minha vida. Ajudar a manter minha auto-estima, me deixar satisfeita. Ele era um chef em ascenção, o que quer dizer que tinha tempo livre pela manhã... Apesar de sua dedicação na cozinha, fora dela ele não tinha muito cuidado com suas palavras e atos, era insensível, bruto, desajeitado. Outro belo paradoxo. Era inseguro fora do espaço em que dominava. Então era eu que tinha essa função. E adorava.

Só que, em casa, as coisas não melhoraram. Pelo contrário. Recuperada minha confiança, eu e Dante brigávamos cada vez mais, a intensidade aumentava devagar, a cada embate. Eu me descobri ácida como nunca havia sido. E atacava tudo que me desagradava com fúria. E quão furiosa eu não fiquei quando encontrei uma mensagem estranhíssima no celular dele. Não, eu não queria espionar, mas quando ele insistia em tocar de madrugada, num dia em que Dante tinha acabado de sair para o escritório, eu perdi as estribeiras. Minha primeira opção foi jogá-lo pela janela, mas o treco vibrou em minha mão. A pessoa desistira de ligar e mandara uma mensagem de texto. Não consigo explicar, eu simplesmente apertei o botão. Segundos depois, Dante entrou correndo no quarto. Ele tinha se dado conta que o aparelho não estava com ele. Tarde demais...

Saturday, April 4, 2009

Um despretensioso conto colaborativo

Tá na moda, né? Com a internet, tudo agora tem apelo participativo... Tive essa idéia (ggrrr, agora é sem acento) por que meu partner poderia trazer muito de sua área pro negócio.

Por isso, ele tem a liberdade para modificar, cortar, aumentar, criticar, dizer que tá ruim e apagar o post! :-P

Bom, aí vai, a coisa começou assim:

Na minha mente há um tribunal em que eu sou sua advogada. Enquanto os outros te consideram réu, eu estou disposta a fazer tudo para provar sua inocência. Acredito no seu depoimento. Em frente a um juri ignorante, eles apresentam provas da sua culpa, as quais julgam irrefutáveis. Eu protesto! Não há testemunhas. Acima de tudo há o benefício da dúvida.
Meu cliente não precisa fazer muito. Eu uso de toda a minha elouquência (até praticamente enlouquecer...). Cito as leis, seus parégrafos e interpretações. Recrio o cenário do crime mais uma vez, e outra, e outra.
A acusação grita: "Como você não vê?"
A justiça é cega.
O juiz nunca bate o martelo. E marca outra audiência, para outro dia.
O juri sabe cada vez menos.
Promotoria e acusação ganham mais tempo.
Você sai algemado.
Eu também, aos processos que levo para casa. Pastas, incontáveis folhas de papel, sobre as quais acado dormindo, ao raiar do dia, após revisá-las pela centésima vez, tentando achar um desfecho favorável. Livrar sua cara e provar que nunca estive errada.

Segunda parte

Depois de ter passado mais de quatro horas tentando convencer um júri que se preocupa mais em tentar não cair no sono do que valorar as provas produzidas no processo, resolvi que precisava de uma cerveja.
Combinei com os colegas de profissão no bar de sempre, próximo ao Edifício Garagem Menezes Cortes. Resolvi me adiantar e cheguei com meia hora de antecedência para pensar um pouco sobre tudo o que aconteceu...
Pedi um choppe bem gelado e puxei um banquinho no bar. Bebi o primeiro copo sem degustar, a sede era maior que tudo e o gosto eu já sabia, afinal.
Antes de começar a entornar o segundo copo, comecei a me lembrar do meu início no Direito Civil...Nossa, como foi que eu vim parar no Direito Penal? Eu que sempre entendi que essas áreas não se misturavam, que o Civil era mais seguro... O que me fez mesmo mudar?
Ah sim, o dinheiro! Eu precisava da grana e a grana é alta quando se tem como cliente um homem rico com o Dante, meu atual cliente...
Um homem rico acusado de ter matado a esposa...Não precisava do dinheiro do seguro...jura de pés juntos que se davam bem...Prova do crime? Nenhuma. Tudo o que se sabe é que ele chegou em casa e achou a mulher sem vida no chão usando um vestido branco encharcado de sangue. Dois tiros no peito...casa revirada...objetos de valor roubados...Mas ninguém viu o meliante sair da casa...Crime estranho, mas possível...
A polícia convencionou que o principal supeito era o meu cliente. Não havia pólvora na mão dele, não foi encontrada a arma do crime. No entanto, todos os vizinhos sabiam da briga feia que eles tiveram na noite anterior...Fofoca...foda!
Eles se desentenderam e o Dante saiu de casa com as roupas e tudo mais...Acontece, porra! Não é?
Desce mais um garçom...
Enquanto espero meu copo e me perco nos detalhes que antecederam o crime vejo um casal na minha frente. A mulher é jovem, o homem nem tanto. Ele roça a barba no pescoço dela e ela parece gostar, pois ri enclinando a cabeça para trás. Era uma cena normal até que reparei que ele usava um grossa aliança dourada e ela não...Amantes...a coisa fica mais quente sem as responsabilidade e neoroses de cada dia...
Amante...eu não pensei nisso! Será que ele tinha uma amante?!
Antes que eu pudesse pensar meus amigos chegaram e estávam acenando pra mim na mesa 12.